8 de março de 2016

Língua: uma arma poderosa


De acordo com fatos históricos, quando uma grande nação conquistava outra, sua língua era imposta aos povos conquistados, fazendo a língua do conquistado sucumbir-se diante da língua do conquistador. Ademais, como língua e cultura andam juntas, não há como conceber uma sem a outra, a cultura era imposta juntamente com a língua. Como grande exemplo, podemos citar o Império Romano, que impôs a língua latina sobre os povos “bárbaros”, difundindo-a por parte da atual Europa, que a primeiro momento, tornou-se o chamado “latim vulgar”, falado pela parcela pobre e oprimida da população. Este, diferenciava-se do “latim erudito”, falado pelos romanos nobres e ricos. Logo após, o latim foi misturando-se as línguas dos “bárbaros” resultando, em cada região, numa nova língua.

As línguas resultantes desta “mistura” são, português, espanhol, italiano, francês, catalão, galego, etc., as consideradas “línguas irmãs”. Por isso, parte das pessoas se identifica mais com o espanhol, do que com o inglês, por exemplo. Acredita-se ainda que todas as línguas tenham se originado de uma única língua: o indu-europeu.

No Brasil, assim como em outros países colonizados pelos portugueses, durante a colonização, os portugueses trouxeram consigo a maior arma dominadora que um povo pode usar contra outro, a língua. Essa, por sua vez, foi imposta e fez sucumbir perante si grande parte das línguas indígenas. A língua sempre esteve e sempre estará viva, e como tal, misturou-se às várias línguas indígenas e às línguas de outros povos que se instauraram aqui, formando o que nós conhecemos como língua portuguesa, “variante brasileira”, que se difere da “variante lusitana”, falada em Portugal.

Esse legado de dominação linguística, deixado pelos portugueses, perdura até hoje, dando-nos a falsa ideia de que há uma língua “pura” e “correta”, e que as demais variantes, são “erradas” e “inferiores”. Este, foi e tem sido, bem propagado pelas sociedades capitalistas, que o adotaram como instrumento de segregação. O falar “culto”, acaba tornando-se, erroneamente, sinônimo de competência comunicativa.

O que a maioria das pessoas não sabe, é que não existe falar errado. Todos falamos português, todos DOMINAMOS a língua portuguesa, temos sua gramática internalizada, e não é sobre saber “de cor” todas aquelas regras extensas e complicadas que assombram garotinhos e marmanjos não! Nós somos falantes nativos de língua portuguesa, ela é NOSSA, tanto quanto é dos portugueses, com as nossas particularidades, claro.

Para a sociedade, temos um modelo, chamado normativo ou padrão, que é utilizado para a escrita. Você já parou para pensar no tamanho do nosso país? É meus amigos, somos mais de 180 milhões de brasileiros distribuídos por cerca de 8.516.000 km² de extensão, já imaginou se cada um escrevesse do seu jeito? A norma padrão é necessária, ela padroniza a língua escrita. Mas na fala você é livre para se expressar, lembrando que há situações de fala, o que há é o chamado preconceito linguístico. Discriminar qualquer pessoa pelo modo de falar, ou pelo sotaque, variação etc., implica em preconceito linguístico.

A língua portuguesa brasileira tem duas variantes, a padrão e não padrão. A variante padrão é a de prestigio, usada na língua escrita, nas escolas, entrevistas de emprego, etc., e é, com expressividade, dominada pela parcela mais rica da população, que a usa como forma de segregação para com aqueles que não a dominam. A variante não padrão é a utilizada no dia a dia, essa permite que o falante se expresse de maneira simples e rápida, usando o “tá” ao invés de “está”, por exemplo. Ambas formas são aceitas na fala. Um bom falante não é aquele que domina a norma padrão ou “culta” o tempo todo, mas aquele que adéqua-se as várias situações de fala do dia a dia, dominando ambas.

Dominar a norma padrão ou “culta”, segundo os puristas (aqueles que defendem que há uma língua “pura”), daria condições de ascensão social, dando a ideia de superioridade por parte daqueles que a dominam. A língua é parte do individuo, sendo um dos fatores que o constituem como único. Todos nós brasileiros, temos como língua materna a língua portuguesa, e indo mais além, todos os indivíduos tem sua língua vernácula, única e sua, que deve ser aceita e respeitada.

Assim, cria-se a “cultura” de que pobre “fala errado”, de que aquele que domina a norma culta “sabe mais”. Isso só existe como instrumento opressor, e é isso que a classe dominante quer que a população acredite, pois acreditar nesta “inferioridade” da maior parte da população, resulta em manipulação e opressão. A língua deveria nos unir e não segregar, a maior arma contra o sistema opressor é o conhecimento, e a propagação dele só é possível através da língua.



Nair Fernandes
é professora de Língua Portuguesa

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