1 de agosto de 2015

Agricultura: o assessoramento técnico inovador e necessário



Estudos recentes mostram que algo como 50 mil produtores rurais – quase 12% dos fazendeiros – geram mais de 87% de todo o valor bruto da produção agropecuária do Brasil. Os outros 88% lutam com extrema dificuldade, sem conhecer o que seja sucesso e prosperidade. Em Goiás, ocorre situação muito parecida.

Segundo esses mesmos estudos, o que explica o sucesso de uns poucos não é mais o tamanho da propriedade nem a disponibilidade de dinheiro para tocar o negócio. O que faz a diferença é a intensidade com que adotam tecnologias adequadamente.

Mas, todo produtor sabe que usar tecnologia intensivamente não é coisa simples. Sabe que isto tem custos que vão além dos insumos, das máquinas e dos serviços necessários, que precisam ser minimizados e os fatores de produção, otimizados. Sabe que é preciso facilidade no acesso à tecnologia desejada e na venda da produção obtida. Afinal, não faz sentido adotar novas tecnologias se não há segurança de que vai conseguir vender a produção ampliada a um preço justo.

Em outras palavras, não só é preciso que o produtor seja “capaz” de usar a tecnologia, o que nem sempre é verdade, como também é fundamental que esse uso seja “possível”, o que nem sempre acontece, principalmente sem assessoramento técnico. O que torna o produtor capaz é a gestão eficiente de sua propriedade para esse fim. O que viabiliza o uso da tecnologia é a organização do entorno de sua fazenda – a cadeia de negócios – para facilitar essa adoção.

Por muito tempo o Brasil apostou na ideia de um assessoramento técnico para a agricultura exclusivamente como serviço público, mas nunca conseguiu fazer com que ela fosse presente e constante para todos os produtores. O que fez a diferença para o pequeno grupo de produtores rurais bem sucedidos foi que eles, individualmente ou em associação, assumiram o assessoramento técnico como um investimento, tão essencial para o sucesso do negócio como são os insumos e as máquinas modernas. Eles sabem, por experiência, que, se dividido entre todos, este custo fica muito barato.

Um caminho testado em vários locais do Brasil é a parceria entre os produtores, suas associações e os órgãos públicos, em que os custos do assessoramento técnico são compartilhados até que a produção cresça e os produtores possam se responsabilizar por sua parcela deste custo. Essas experiências mostram que um custo que é muito alto para o Estado se torna muito barato quando dividido com grupos de produtores.

Nessa parceria, faz-se um projeto de assessoramento técnico, por conta do Estado, por tempo determinado. Ele objetiva reorganizar os produtores e o planejamento de cada propriedade e também melhorar o padrão de produção e a renda do produtor. Ao final desse período, à medida que cresce a renda, os produtores se emancipam e passam a compartilhar, entre si, o custo referente ao trabalho dos técnicos de nível médio, que efetivamente operacionalizam o assessoramento técnico.

A Emater, prefeituras, cooperativas e outras organizações interessadas compartilham, desde o início, os custos de profissionais de nível superior, tais como agrônomos, veterinários, zootecnistas e assistentes sociais, encarregados de diagnósticos, planos e metodologias. O fundamental é que se articule uma rede de inovação agrícola, integrando técnicos de nível médio e de nível superior, públicos e privados, de maneira que o trabalho de uns nutra o dos outros, na manutenção desse arranjo público-privado de assessoramento técnico, local e continuado.

Para participar de tal arranjo, a Emater Goiás está criando um Núcleo de Inteligência Territorial capaz de decodificar a realidade produtiva local, com recursos de estatísticas, de geoprocessamento e processamento de imagens, para orientar as decisões dessa rede de inovação no melhor interesse dos produtores. O foco são suas reais possibilidades e metas de produção exequíveis, ajudando cada produtor a ser o protagonista de seu próprio desenvolvimento, crescendo com segurança, sem sustos e no seu próprio ritmo.

Trabalhando como gestores do conhecimento, os técnicos da Emater Goiás poderão atender a todos, num trabalho integrado e continuado. Tendo nos técnicos de nível médio o seu próprio agente de inovação, o produtor estará preparado e emancipado para fazer avançar seus projetos, sem ter descontinuidade por eventuais dificuldades do Estado. Esse é o assessoramento técnico necessário e possível que podemos realizar para o bem da agricultura de Goiás, dos produtores rurais e de suas organizações.



Pedro Arraes
é presidente da Emater


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