13 de abril de 2014

Lembranças de quem cresceu com a Igreja Cristã


Foto: Arquivo (Nádia Magalhães)
De um fazendeiro que se apaixonou pelo cristianismo surgiu toda uma história. Única até então. “A primeira cidade que se formou por protestantes e uma igreja”, diz Luís Tedesco, 85, um dos precursores da Igreja Cristã Evangélica de Cristianópolis (ICEC). A realidade, no entanto, em nada se compara ao século passado e em plena luta pela sobrevivência, “a igreja foi de suma importância para dar base à vida familiar”, ressalta Neide Pereira de Paula, 70, mulher de determinação que também colaborou para o crescimento da congregação.

ANA PEREIRA:
"O povo ia longe, nos brejos,
buscar flores para enfeitar a igreja
que ficava toda perfumada"
Cristianópolis que tem seu nome derivado da palavra ‘cristão’ não condiz com a sua população. Segundo estimativa de Luís Tedesco, apenas 30% do município frequenta uma igreja local. Para Ana Pereira, 89, outra pioneira da ICEC, a maioria se esqueceu da comunhão e os que antes eram fervorosos pelo ministério, hoje desejam apenas abundância de bens materiais. “O amor esfriou, virou gelo. As pessoas vão à Igreja somente pra buscar a prosperidade terrena”, afirma.

A preocupação que Ana Pereira tem com a omissão do povo perante a Igreja é a mesma de Idel Damásio que atuou durante grande parte de seus 88 anos, na diretoria da Escola Bíblica Dominical. Ela confere grande parte dos problemas enfrentados pela gestão ao surgimento de novas comunidades religiosas no município. “O aparecimento de novas igrejas, o descaso e a falta de boa vontade são as aparentes causas”.

Gedeão Pereira de Paula, 72, avalia que a modernidade do mundo fez com que a sociedade perdesse a fé no espírito e, dessa forma, se esquecesse da salvação. “O Deus é o mesmo, não há necessidade de mudança. A televisão e, principalmente, o ‘não vou perder minha novela’ também atrapalham muito. Eu e Neide crescemos, batizamos, casamos e criamos nossos filhos aqui. Hoje todos estão firmes conosco", relata.

Casal Neide de Paula e Gedeão Pereira
dedicaram a vida para o ministério.
“Igreja dá base para a vida familiar”, afirma Neide.
A estrutura interior e particular da ICEC perdeu grande parte de seu legado. Quem diz isso é uma das primeiras frequentadoras da Igreja, Dona Idelma Magalhães, de 88 anos. Segundo ela, a participação sempre foi fundamental para o bom desempenho da obra, isso deve voltar e precisa ser respeitado. “Antigamente todos os domingos tinha coral, a União Feminina (atual Mulheres em Ação) fazia teatros lindos e através de ‘pamonhadas’, ‘moquecadas’ e outras arrecadações conseguíamos ajudar a igreja e as pessoas necessitadas”, lembra.

Grande parte dessas histórias voltam à tona, outras ficam nas recordações. "Me lembro dos lindos recitais de poesias, das inesquecíveis festas de Natal. Dona Laura e eu passávamos todo o mês de dezembro fazendo as roupas temáticas para as comemorações de fim de ano", conta Idel Damásio.Em uma época em que a precariedade era grande não faltava força de vontade. "O povo ia longe, nos brejos, buscar flores para enfeitar a igreja que ficava toda perfumada" recorda Ana Pereira.

1902 ou 1904?

Luís Tedesco é vizinho de quadra da Igreja Cristã Evangélica e
lembra com carinho da época das convenções: “O foco era se espiritualizar”.
Uma história com mais de um século de existência e com tantos personagens envolvidos não deixa de ter as suas controvérsias. Para firmar uma tese que causa enorme discussão, Luís Tedesco volta no tempo e garante: a igreja não foi fundada em 1904, mas sim, dois anos antes.

“Dizem isso porque o livro do Sr. Tipo (sic) diz que os perseguidos de Santa Cruz vieram para cá em 1904, mas quando eles vieram, a igreja já existia e foi onde eles se abrigaram. Em 1902 foram criadas três: aqui, em Catalão e Goiás Velho. Na história como está sendo contada parece que foram os [perseguidos] de Santa Cruz que a fundaram. O reverendo Frederico Glass já fazia os trabalhos na antiga igrejinha, mas infelizmente todos os arquivos foram queimados", descreve.

A atual organização da Congregação Cristã do Brasil dividiu as igrejas por setor e um templo local responsável pela região. A mudança, segundo Ana Pereira, não foi bem recebida por todos os membros e, assim, se desfez uma grande e renomada festa: as convenções. “A cidade ficava lotada. Todos iam ver a chegada dos carros de boi que vinham enfeitados de ramos. Não era preciso ter roupa bonita, todos eram humildades e unidos. No final, lágrimas de saudade se misturavam aos lencinhos brancos balançados pelas mãos”, lembra.

IDELMA MAGALHÃES:
"Agradeço a Deus pela graça e saúde
para continuar na obra até
quando Ele quiser
IDEL DAMÁSIO:
"Me lembro dos lindos recitais de poesias,
das inesquecíveis festas de Natal..."
O objetivo das convenções, de acordo com Luís Tedesco, era compartilhar o evangelho e fortalecer a fé. “O foco era se espiritualizar”. Segundo Idel Damásio, hospitalidade também era uma marca do evento. “O povo abria suas casas para os que vinham de longe... Não tinha conforto, mas ninguém ficava desabrigado”.

Quanto à infraestrutura atual da Igreja Cristã Evangélica de Cristianópolis, Luís Tedesco é enfático ao afirmar que o local está muito bem preservado, mas carece de alguns reparos. “O grupo de louvor precisa de um lugar adequado e próprio para se apresentar. A igreja tem que ter um declínio que dê ao pastor maior visão e audição”.

Edificada por anciões que herdaram de berço o amor pelo próximo, firmaram sua fé com o batismo e ainda jovens escolheram ser lembrados por fazerem parte da História, a Igreja Cristã Evangélica de Cristianópolis vai se firmando como epígrafe da fundação do município. Em um agradecimento sincero a todos que fazem da ICEC uma congregação de força, espírito e fé, a matriarca Idelma Magalhães conclui: “Agradeço a Deus pela graça e saúde para continuar na obra até quando Ele quiser”.

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