2 de setembro de 2013

ARTIGO: Sou daqui, aqui é meu lugar


Lembro do dia em que fui de Cristianópolis a Passa Quatro a pé. Eu estava em uma cidade próxima a Catalão, passei o sábado lá, e na madrugada de domingo, depois de uma festa, voltei de ônibus, que me deixou na rodovia. Não tinha como avisar alguém em casa, para alguém me buscar de carro, por causa do horário e porque na época só havia uma linha de telefone em Passa Quatro. Era o tempo do telefone ‘molecolar’. A gente ligava, a telefonista anotava o recado, e um bilhete era enviado a quem de direito por um ‘moleque’. Piada? Era mesmo. Mas tudo verdade.

Adolescente, ansioso, e crente que era pertinho, dava tranquilo para ir a pé, rumei para casa. Queria chegar logo. Logo passaria alguém e eu pegaria carona, também calculei. No início, andei em alta velocidade, as pernas estavam firmes, a respiração tinha a arrogância de quem se achava um atleta. Hoje é fácil visualizar a estrada entre as duas cidades. Para quem é da região, basta fechar os olhos que um mapa com curvas e retas asfaltadas salta aos olhos. Só que eu falo de um tempo em que asfalto era um sonho distante. Tudo era chão.

O bom de caminhar em estrada de chão é que se ouve como música serena o barulho dos pés chutando pedras, o vento assobiando, e o próprio pensamento. O ruim, como naquela noite, é o breu, a sensação de se estar perdido, de que na próxima curva algo vai acontecer e não é cidade de repente chegando ao seu encontro. Aos poucos minhas pernas começaram a pesar, o suor desceu e a angústia da distância tomou conta da cabeça. Estava sozinho. Estava onde mesmo? E se... Para me salvar veio o sol, de mansinho, desconfiado, talvez rindo um pouco do meu desespero.

Fui arrumar carona já chegando em Passa Quatro, lá no morro de onde já se avista a cidade, perto do posto. Agora consigo rir da situação. E até falar. Aliás, é a primeira vez que conto isso. Em casa, ninguém sabe. Quer dizer, agora sabe. É uma das minhas histórias de vida preferidas. Acho que não tinha contado ainda pra ninguém porque a queria só pra mim. Ela me diz muito – se é que me entendem. Adolescência. Festa. Paixão. Desafio. Cansaço. Vitória. São evocações de um homem em formação.

Também fala bastante de como era viver Passa Quatro e Cristianópolis até bem pouco tempo. Não havia asfalto. Não havia telefone direito. Não havia rádio, muito menos jornal. Havia demais, disso lembro direitinho, era barro na baixada do Passa Quatro, o ribeirão. Descer e subir o morro era coisa de cinema. Tipo engatar uma primeira no carro, na descida, jogar uma segunda, depois uma quarta, passar a ponte tremendo e jogar uma terceira, e aí uma segunda, e uma primeira e rezar para chegar lá em cima. Isso o carro dançando como se em um salão enorme, valsa, pra lá e pra cá, em volteios de 180 graus, 360 graus, um espetáculo. Carro? Uma Brasília!

Gosto de Cristianópolis porque sou apaixonado por Passa Quatro. É difícil viajar de Goiânia até Cristia. Uma viagem chata, às vezes longa. Mas no momento em que chego ali a respiração já muda, os olhos ficam mais atentos e o coração cresce, tomando conta de todo o resto. Em Passa Quatro chego sempre emocionado, lembrando dos parentes (saudade mais recente: Tia Divina do Tio Urias...), que eu tenho que ir na Tia Inácia, que preciso pedir mais doce de ovo para a Tia Divina, que não posso esquecer das pelotas que a minha mãe faz e que prometi levar para uns amigos, enfim, que. Ponto, porque senão vou por aí sem fim.

Ando tão velho nessa minha emoção, que fico repetindo para meus filhos histórias de uma infância querida, de momentos vividos com tios, primos, amigos, como o Zé Cueca, que carrega no rosto um sorriso de satisfação que faz a vida valer a pena. Essa intimidade com a cidade, com o povo, com a gente que me conhece é coisa que não dá pra traduzir. As palavras não dão conta da vida que carrega a praça que leva o nome do meu avô, Sebastião Gonçalves da Silva; não conseguem definir como é andar pela rua José Calixto de Carvalho, meu outro avô. Não, não dão conta. É... É... Você sabe, você que é daqui entende o que quero dizer, tenho certeza. Só você me entende.

Até concordo que Passa Quatro e Cristianópolis são pequenas demais para quem olha de fora. Mas a verdade é que, para quem está dentro, aqui é uma imensidão, um mundo sem fim, uma reticências aos olhos de Deus. Posso dizer: aqui cheguei várias vezes para viagens maravilhosas, e daqui parti para aventuras inesquecíveis. Me orgulho disso. Tenho histórias pra contar. Ninguém viveu por mim.



Vassil Oliveira
jornalista

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Fale Conosco

Nome

E-mail *

Mensagem *

Institucional

Receba em seu e-mail