1 de agosto de 2013

ARTIGO: Cristianópolis, 60 anos de história e estórias



Cidades do interior são atípicas, folclóricas. Cristianópolis é única. A cidade que viu nascer ícones da política, da medicina e da mídia goiana [claro] está completando 60 anos. Seis décadas que se passaram como guardim ao vento, que continuam partindo, progredindo em seu tempo. A história da cidade ocorre paralelamente à história do Estado. Viu a capital nascer a menos de 100km de distância, viu cidades turísticas contornarem sua biografia, viu as máquinas cortarem seu território e, acreditem, ainda verá uma duplicação.

Cristianópolis é única. Porque tem cidadãos imponentes, habitantes ilustres. Dali saíram bordões que propagaram-se pelo país. Alguns advindos do Sr. Edval “Cabeça Branca”, como é conhecido: “Olha a chuva, vem dali”, “Cê vai ou vem, eu vou prali”, são exemplos. Tem também o peculiar ‘Crioba’ que omitia as conversas e fez nascer o: “Disfarça não, Crioba” e o João Vitor que chamava o avô para ir embora pra casa e ouvia sempre um: “Aham, João Vitor, agorinha.” Alguns ainda são vivos e continuam espalhando essa alegria pelos munícipes. Outros ficaram na lembrança como o Senhor Gercino Camelo, uma figura.

Dizem que um dia ele subiu num pé de manga em uma engenhoca, queria voar. Seu irmão, Jaide, ficou pra trás. Claro que aquilo não ia dar certo. Estatelou no chão com manga e tudo e ainda teve de ouvir o irmão reclamar: “Coisa boa, não quis me levar!” São estórias reais que, hoje, tornaram-se fábulas contadas e recontadas pelas gerações de cristianopolinos.

Outra estória boa de ouvir é a de Gercino e Zizinho, um comerciante local e, por sinal, meu tio [ali todo mundo é parente de todo mundo]. Reza a lenda que um dia meu tio levou o amigo ao médico em Goiânia, deixou-o no hospital e foi fazer as compras do mercado. Gercino terminou mais cedo e saiu vagando pela capital em busca de Zizinho. Numa hora, parou em plena Avenida Anhanguera e perguntou: “Cê viu o Zizinho? O Zizinho lá de Cristianópolis?” Estórias reais contadas por quem traça a história desse município.

Boa parte dessas estórias ouvi, outras presenciei, nascendo e morando dezesseis anos ali. Conheci figuras como Dona Maria Júlia, uma senhora que morava no abrigo municipal de idosos e que todas as manhãs saia pela cidade em busca dos mais inusitados objetos: uma meia furada, uma bacia velha, um parafuso solto. Ninguém entendia o que ela falava, mas todos sabiam o que ela queria. Conheci também o ‘Zé Butão’, esse era muito gozado. Todos os sábados ia para a praça central [um costume local preservado até hoje] e ao contrário do povo que se reunia ali para pôr a conversa em dia, ele rodeava o canteiro central a noite inteira, calado e olhando pra baixo. Eu, na inocência, encabulava com aquilo; o homem não ficava tonto, acreditem.

E não acabou. Minha mãe [um beijo pra ela], conta outras histórias engraçadas que, com certeza chegarão a gerações futuras. Dona Belontina, uma senhora muito querida na cidade, perdeu o filho e no dia do velório ainda precisou aguentar a roda de amigos que bebia todas em volta do caixão. As horas passavam e ela se recusava a enterrar o defunto até que chamaram a polícia e arrumaram uma lambreta para fazer o cortejo. O final vocês já devem imaginar, o finado foi ao chão e esse se tornou um dos sepultamentos mais comentados da cidade.

Minha tia descreve outra história engraçada que preciso compartilhar antes de encerrar a crônica. Conta-se que ali viviam três amigos: Santo (um policial), Anjo e Dito Capeta. Os dois últimos eram amigos. Um dia, após uma briga, Santo prendeu Anjo e o terceiro, com sua rebeldia, foi até a cadeia e afiançou o amigo. Aí começaram os comentários: “De que adianta o Santo prender o Anjo, se o Capeta vai lá e solta...” De rir, lamentar ou só ouvir mesmo, essas são apenas algumas das dezenas de estórias contadas em Cristianópolis, há sessenta anos, autônoma.

Ali deixei conhecidos, amigos, familiares, mas não deixei o encanto e o carinho que sinto pela terra. Figuras assim são necessárias para que a cidade cresça e mantenha a graça do interior. Cito o que eu costumo dizer sempre: “Na teoria, cidades do interior serão sempre pacatas, sempre tranquilas, porque se crescerem perdem a graça. As lembranças já não seriam as mesmas, você as apagaria da mente e a vida passaria depressa, como a de quem não mora em cidades assim. Tudo isso porque de repente, você cresce e não quer que ela cresça contigo. Você quer tudo parado no tempo para apreciar como era, há 22 anos atrás.” Parabéns Cristianópolis pelos 60 anos de emancipação política. E olha que política é outra particularidade do município, mas essa conversa a gente deixa pra outro dia...



Rafael Ceciliano

jornalista e editor-chefe da Folha de Cristianópolis

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